Conscientização e prevenção das doenças da retina e dos problemas de visão em geral são cruciais para propiciar um diagnóstico precoce e um tratamento adequado. Segundo pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 35 milhões de pessoas sofrem com algum problema de visão no Brasil – aproximadamente 19% da população do país. Alguns dos problemas mais comuns enfrentados pela sociedade brasileira são as doenças da retina – parte do olho que se liga ao nervo óptico, responsável pelo envio de toda informação visual para o cérebro. O descolamento da retina está entre elas.
Geralmente, o descolamento da retina se inicia quando o vítreo, um fluído gelatinoso e transparente que preenche a maior parte do interior do globo ocular e que ajuda a manter a forma do olho, se encolhe e se separa da retina. Porém, outras razões também podem proporcionar esse acontecimento, como as seguintes: Furos ou rasgos na retina – Traumatismos cranianos ou oculares, ferimentos no olho ou outras doenças na região podem fazer com que a retina fure ou se rompa, causando um descolamento.
Outra possível razão para o descolamento é a tração ou repuxamento da retina onde se formaram aderências em virtude de alterações no vítreo em decorrência de idade avançada. Doenças inflamatórias ou tumores podem fazer com que ocorra um acúmulo de líquido abaixo da retina, nos vasos sanguíneos ou em tecidos do olho. Esse fluído em excesso faz com que as camadas da retina se separem, resultando em um descolamento.
Além delas, problemas como diabetes, miopia e glaucoma também podem levar a este resultado. O envelhecimento, principalmente em pessoas com 40 anos ou mais, cirurgia anterior de catarata e histórico familiar também são fatores de risco. Há mais de 3 anos, morador de Praia Grande luta contra o problema. Uma das pessoas que lutam contra o descolamento da retina é o advogado Fábio D’Almeida, de Praia Grande (SP). Atualmente com 54 anos, Fábio foi diagnosticado com o problema em dezembro de 2014, de forma repentina, ao começar a perceber as chamadas moscas volantes em sua vista (sensação de insetos voando diante dos olhos), ou seja, pequenas manchas escuras ou pontos na visão.
“Assim que notei, fui ao médico realizar alguns exames e foi detectado o descolamento parcial da minha retina, mas só tratável através de intervenções cirúrgicas. Na época, consegui com a maior rapidez possível, devido ao meu plano de saúde, e fiz minha primeira cirurgia. Mas essa não seria a única, outras oito ainda viriam nesse meu calvário buscando a cura para esse mal”.
A primeira cirurgia foi bem sucedida, sendo feita a colagem da retina com laser e a colocação de um óleo de silicone na seqüência para mantê-la no lugar. “Fiquei com esse óleo por sete meses, pois o prazo para que ele reposicione a retina corretamente, para que a pessoa possa voltar a enxergar, é de seis meses a um ano. Ao retirá-lo, comecei a enxergar novamente, de forma razoável, o chamado 20/40, aproximadamente 80% de visão”.
A princípio ficou tudo bem, Fábio já tinha até voltado a trabalhar, mesmo quando ainda estava com o óleo de silicone no olho, mas 30 dias depois a retina descolou mais uma vez e a saga começou, foram mais cinco cirurgias somente na Baixada Santista entre colar a retina novamente, colocar e retirar o óleo de silicone e etc. “Foram tantas cirurgias sucessivas em 2015 que até a esclera (esse branco do globo ocular) se abriu e o olho começou a murchar. Além da visão, eu estava começando a perder o olho também, o que me gerava muitas dores, uma situação horrível. Até que ele conseguiu se fechar naturalmente, sem a necessidade de um novo procedimento cirúrgico”.
Como se já não bastasse, pouco depois, no início de 2016, Fábio desenvolveu uma uveíte (uma inflamação no olho), tendo que iniciar um novo tratamento. Entretanto, houve um efeito colateral, surgindo uma membrana na pupila, bem na frente do olho, prejudicando ainda mais sua visão. Com isso, os médicos também não conseguiam mais verificar como estava sua retina. “Foi quando decidi procurar um tratamento de excelência em São Paulo, por meio de uma clínica especializada em retina. Para isso, tive, inclusive, que me desfazer de meu carro para poder pagar os honorários dos médicos que me atenderiam, pois o plano de saúde, apesar de me custar 2 mil reais mensais, cobria apenas os gastos hospitalares. Então, mais três cirurgias foram feitas”.
Novamente, óleo de silicone foi colocado em seu olho. No entanto, a região ocular é muito sensível e a cada vez que se mexe nela há conseqüências. Após tantos procedimentos cirúrgicos sem sucesso, e com o passar do tempo, a visão de Fábio foi ficando cada vez mais prejudicada, mais escurecida. “Tenho orientação médica para retirar esse último óleo de silicone que colocaram em meu olho, já que estou há quase 13 meses com ele. Como disse a duração média para cada óleo ter aplicabilidade é de seis meses a um ano. Depois disso, em vez de ele fazer bem passa a fazer mal. Só que agora preciso de mais dinheiro para fazer essa nova cirurgia”.
Tão importante quanto o tratamento adequado é a conscientização e a prevenção desses problemas. Ciente da falta de informações sobre as doenças da retina na rede pública de saúde, o deputado estadual Cássio Navarro apresentou um novo projeto de lei que institui o mês de prevenção às doenças da retina no calendário oficial do Estado de São Paulo, o “Setembro Branco”. O objetivo é que o governo estadual promova, anualmente, campanhas de conscientização e prevenção aos problemas de visão em parceria com as prefeituras, instituições de ensino e organizações não governamentais, beneficiando assim todos os municípios do Estado.
“É importante que a rede pública de saúde participe de ações de conscientização sobre esses problemas. O intuito é que haja uma ampla divulgação da importância desse cuidado para a prevenção e o tratamento continuado de doenças que podem resultar na perda total de visão. O diagnóstico precoce faz a diferença, quanto antes for feita a detecção e a intervenção médica para reverter o quadro, menores serão os danos causados”. Cássio destaca também que setembro foi escolhido por ser o mês em que se celebra o Dia Mundial da Retina. Quanto à cor branca, sua escolha se deve ao fato de ser ela a junção de todas as outras cores. “A destinação de um mês para chamar a atenção de todos sobre a importância da prevenção de doenças, como o ‘Outubro Rosa’ e o ‘Novembro Azul’, tem resultado e traz uma maior conscientização da população a respeito”. Após aprovado, o PL n° 300/2018 obriga a rede de saúde do Estado a disponibilizar material informativo sobre os sintomas indicativos de doenças da retina para possibilitar um diagnóstico precoce. A rede poderá promover também debates e outros eventos para o estudo e a formulação de políticas públicas voltadas aos portadores destes problemas, visando divulgar os tratamentos existentes e difundir os avanços obtidos com pesquisas relacionadas.
Para Fábio D’Almeida, a conscientização e a prevenção são fundamentais. “As pessoas devem fazer exames de visão, no mínimo, de seis em seis meses. Isso é muito importante. Acredito que o projeto ‘Setembro Branco’ irá ajudar muito a população do nosso Estado com a conscientização necessária para os problemas da retina, córnea e as doenças em geral que mais afetam a visão”. Fábio diz também que são iniciativas como essa que podem ajudar a população, podendo até abrir caminhos para outras ações que auxiliem ainda mais as pessoas que precisam. “Agradeço muito ao deputado estadual Cássio Navarro, acredito que com isso ele conseguirá ajudar muitas pessoas que estão lutando contra doenças da retina, que estão passando por situações como a que venho enfrentando há quatro anos. Muito obrigado”.