Nova lei estadual ajuda a combater o preconceito contra o autismo e a garantir mais inclusão social aos seus portadores Diversas doenças e problemas de saúde ainda são desconhecidos por grande parte da população do país, aumentando o número de casos de discriminação e preconceito. Com o autismo – transtorno que afeta o sistema nervoso do organismo, marcado principalmente por sintomas como a dificuldade na comunicação e nas interações sociais, interesses obsessivos e comportamentos repetitivos -, infelizmente, não é diferente.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma em cada 68 pessoas sofre com o autismo. Por mais que pareça algo comum, a falta de informação sobre o transtorno ainda é muito grande e afeta seus portadores e familiares, que muitas vezes são menosprezados ou até humilhados. Foi o que aconteceu com as gêmeas Ana Maria e Maria Luiza, de 12 anos, e com seus pais, Fátima Machado e João Henrique, de Arujá (SP).
A descoberta do autismo Tudo começou há 13 anos, quando Fátima descobriu que estava grávida de gêmeas. No entanto, após uma gestação e um parto completamente normal, ela percebeu que algo não estava certo e que suas filhas, Ana Maria e Maria Luiza, choravam e gritavam bastante. Além disso, elas não demonstravam nenhum tipo de reação quando chamadas pelos pais. “Achei estranho, mas como não tinha nenhum outro bebê por perto para identificar se era normal ou não, fomos seguindo. Mas quando elas completaram um ano e dois meses sem dizer uma palavra, cheguei a conclusão de que realmente tinha algo errado e as levei na pediatra. Após uma análise inicial, a médica também notou algo diferente e me indicou um neurologista. Novos exames foram feitos, que apontaram uma irritabilidade, a princípio, na Ana”.
Por fim, Fátima chegou a um psiquiatra e ouviu o que não esperava, que suas filhas tinham autismo severo. Naturalmente, ela e seu marido entraram em pânico e se perguntaram como isso era possível, como fariam para cuidar de um transtorno que nem sabiam o que era de fato. “Foi quando disse para mim mesma que, independentemente disso, nós correríamos atrás e faríamos o que pudéssemos para melhorar o desenvolvimento de nossas filhas. Porque do jeito que estava não poderia ficar: eu não dormia, não comia, não tinha tempo para nada. Elas choravam de um lado e eu do outro, porque no fundo não sabia o que fazer”. As dificuldades impostas pelo transtorno e o tratamento para controlá-lo Os primeiros anos de crianças autistas não são fáceis. “Imagina duas crianças se jogando no chão, gritando, batendo a cabeça na parede, me agredindo, sem querer se vestir, sem querer comer. Elas começaram a falar apenas com seis anos de idade, mas depois disso passaram a me entender mais e as coisas ficaram um pouco menos complicadas. Antes disso era difícil, como elas não falavam e só gritavam, eu não entendia”. O psiquiatra então passou um medicamento controlado, o Neuleptil (um forte calmante). Deu resultado, Ana e Maria começaram a ter mais concentração para aprender e mais facilidade para continuar o tratamento. “Passamos também em fonoaudiólogos, psicólogos, geneticistas, terapeutas ocupacionais, entre outros especialistas”.
Logo, outros resultados começaram a aparecer e as meninas também iniciaram a prática de esportes. “A Ana, por exemplo, praticou caratê e chegou até a faixa verde. Inclusive, acho que o esporte é fundamental para o desenvolvimento de qualquer criança”. O preconceito com o autismo Como se não bastasse as adversidades causadas pelo autismo em si, seus portadores e familiares ainda precisam lidar com o preconceito, fruto da grande falta de conhecimento do transtorno por parte das outras pessoas. Infelizmente, Ana, Maria e seus pais enfrentam esse mal até hoje. Para Fátima, há muitas pessoas para julgar, mas poucas para ajudar.
“Lidamos com muito preconceito diariamente, até hoje. Quando íamos no shopping, por exemplo, elas tinham dificuldade para se socializar. Porque são locais com muita luz, muito barulho, muita gente no mesmo ambiente, o que fazia com que entrassem em transtorno, gritando e se jogando no chão. As pessoas, ao invés de ajudar, já nos xingaram de várias coisas terríveis que nem vale a pena mencionar”. Com medo da reação das pessoas, muitas outras mães e famílias de autistas ficam com medo de saírem de casa com seus filhos, com receio de expô-los a alguma situação desagradável.
“Tem mães que nem saem de casa porque têm medo de serem humilhadas quando os filhos tiverem transtornos. É muito difícil”. Nova lei que garante atendimento prioritário auxilia na inclusão social de autistas. Com o objetivo de combater o preconceito contra os portadores de autismo e auxiliá-los a obter uma maior inclusão social, o deputado estadual Cássio Navarro redigiu um novo projeto de lei que os beneficia com atendimento prioritário em estabelecimentos públicos e privados do Estado de São Paulo, obrigando a inserção do símbolo mundial da conscientização do autismo nas placas de atendimento preferencial (a imagem da “fita quebra-cabeças”).
Já aprovado pela Assembléia Legislativa do Estado e sancionado pelo Governo do Estado em junho deste ano, o projeto n° 220/2017 determina ainda que o descumprimento da nova lei implica em advertência por escrito na primeira autuação e multas nas demais. Cássio Navarro diz que a população precisa conhecer mais sobre o assunto e só assim vai reconhecer e respeitar os benefícios que os portadores e seus familiares necessitam. “Esta Lei, além de garantir atendimento mais rápido aos autistas, é uma forma de dar mais visibilidade ao transtorno.”
Para o pai de Ana e Maria, João Henrique, essa nova lei ajudará muitas pessoas. “Sinceramente, ficamos muito felizes com isso. Essa adoção do símbolo mundial da conscientização do autismo em todo o Estado de São Paulo vai alertar as pessoas sobre o transtorno, elas vão ficar curiosas e querer saber o que é, e isso vai gerar um maior conhecimento do problema”. “Tenho certeza que todas as mães de autistas ficarão contentes com essa lei, não tenho palavras para descrever minha alegria. Gostaria de agradecer ao deputado estadual Cássio Navarro por estar nos ajudando”, diz Fátima. Ana, inclusive, chorou de emoção quando viu a placa pela primeira vez no cinema do shopping de Itaquaquecetuba. “Isso é uma vitória para nós, porque sempre enfrentamos muito preconceito e eu ficava triste com isso”.